terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Aldeia dos Sorrisos


Esta 
era uma 
aldeia 
peculiar. 

A aldeia dos sorrisos. 


Os seus 

habitantes 
não podiam 
chorar. 

Mesmo que 

sofressem, 
que sentissem 
dor. 

No 

rosto 
só podia 
aparecer um 
sorriso. 

Ainda 

que no 
resto do corpo 
estivesse 
estampada 
outra emoção. 


sensação de 
perda. 

De infelicidade. 


Ninguém se podia 

colocar 
acima 
da lei. 

A ninguém era 

permitido 
desrespeitar esta 
obrigação. 

A obrigação de 

mentir. 

O objectivo era 

não haver 
tristeza, 
diziam os anciãos. 

Este 

estado de 
espírito era 
negativo. 

E, 

portanto, 
devia ser 
anulado, 
banido 
daquela aldeia. 

Para que todos 

pudessem 
ser mais 
felizes. 

Nem o 

chefe da aldeia 
podia estar 
triste. 

Por mais 

problemas escondidos que 
sentisse 
haver no 
rosto dos 
seus. 

Mesmo que tivesse 

descoberto 
que todos 
estavam 
cada vez 
mais infelizes. 

Nas 

longas filas de 
habitantes 
à espera dos 
víveres que 
escasseavam, 
todos 
sorriam. 

Não havia 

quem não lhe 
mentisse, 
repetindo que estava 
tudo 
bem. 

Que tudo sempre 

corria às 
mil 
maravilhas. 

Mas o chefe notara 

algo de 
estranho. 

Os olhos de 

todos, 
inclusive os 
dele, 
estavam 
diferentes. 

Estavam 

lentamente a 
mudar. 

As suas cores eram mais 

baças, 
mais 
acinzentadas. 

Se calhar, 

eram as 
lágrimas 
que não haviam 
saído por 
eles. 

Talvez tivessem começado a 

encher o interior do 
corpo 
com a 
tristeza nelas 
contida. 

E, 

agora, 
chegado ao 
topo, 
à própria 
cabeça. 

E, 

então, 
a cor 
delas 
começado a mudar a 
cor de 
tudo o que 
existia. 

Era pela janela dos 

olhos 
que a 
mudança se 
tornava mais 
visível. 

Mas o maior 

mal 
estava à 
espreita. 


perigo 
de que, 
um dia, 
as pessoas 
deixassem de 
sentir 
o que 
quer que 
fosse. 

E se 

tornassem 
indiferentes. 

Mas, 

subitamente, 
aconteceu uma 
tragédia. 

Que logo se 

transformou numa 
bênção. 

Numa alegria. 


Tudo teve 

início 
num 
acidente. 

No conselho dos 

anciãos, 
por descuido 
um deles 
provocou um 
incêndio. 
As portas encontravam-se 
sempre 
trancadas. 

Eles temiam 

secretamente os 
habitantes 
que não podiam 
chorar 
por sua 
causa. 

E, 

de facto, 
mesmo depois de soado o 
alarme, 

verdade 
é que 
ninguém 
acorreu. 

Ninguém 

ajudou 
os que queriam 
saír 
daquele lugar em 
chamas. 

Estariam decerto 

aflitos, 
desesperados, 
não estariam a 
sorrir. 

Desobedecendo 

ostensivamente 
à 
lei mais importante da 
aldeia. 

Não 

podia ser 
tal. 

Eles 

tinham, 
forçosamente, 
que dar o 
exemplo. 

Não o 

fazendo, 
mereciam 
ser castigados. 

Dias depois, 

quando já não se 
distinguia um 
corpo 
de uma 
cinza de madeira, 
tudo 
acabou. 

Com o 

fumo, 
desapareceu toda a 
proibição 
de 
esconder a 
tristeza. 

E, 

então, 
de mãos 
dadas, 
todos 
choraram 
até não poder 
mais. 

Após o 

pranto, 
vieram os 
abraços colectivos. 


euforia 
de quem festeja a 
liberdade, 

mudança. 

Uma enorme festa 

começou, 
durando 
sete maravilhosos 
dias. 

No 

futuro, 
aquela semana seria 
sempre 
palco de festejos. 

“Porque agora choramos e rimos, porque agora somos o que sentimos.” 


O nome da 

aldeia, 
antes 
mudado 
pelos falecidos 
anciãos, 
agora passou a ser 
outro. 

Apenas um nome 

maior, 
mas com um 
importante acrescento. 

Esta 

era, 
agora, 
a aldeia dos 
sorrisos e dos 
choros. 

Porque a 

tristeza 
também faz parte da 
vida. 

Sem 

ela, 
a vida é 
certamente 
mais difícil. 

Insuportável.