Esta
era uma
aldeia
peculiar.
A aldeia dos sorrisos.
Os seus
habitantes
não podiam
chorar.
Mesmo que
sofressem,
que sentissem
dor.
No
rosto
só podia
aparecer um
sorriso.
Ainda
que no
resto do corpo
estivesse
estampada
outra emoção.
A
sensação de
perda.
De infelicidade.
Ninguém se podia
colocar
acima
da lei.
A ninguém era
permitido
desrespeitar esta
obrigação.
A obrigação de
mentir.
O objectivo era
não haver
tristeza,
diziam os anciãos.
Este
estado de
espírito era
negativo.
E,
portanto,
devia ser
anulado,
banido
daquela aldeia.
Para que todos
pudessem
ser mais
felizes.
Nem o
chefe da aldeia
podia estar
triste.
Por mais
problemas escondidos que
sentisse
haver no
rosto dos
seus.
Mesmo que tivesse
descoberto
que todos
estavam
cada vez
mais infelizes.
Nas
longas filas de
habitantes
à espera dos
víveres que
escasseavam,
todos
sorriam.
Não havia
quem não lhe
mentisse,
repetindo que estava
tudo
bem.
Que tudo sempre
corria às
mil
maravilhas.
Mas o chefe notara
algo de
estranho.
Os olhos de
todos,
inclusive os
dele,
estavam
diferentes.
Estavam
lentamente a
mudar.
As suas cores eram mais
baças,
mais
acinzentadas.
Se calhar,
eram as
lágrimas
que não haviam
saído por
eles.
Talvez tivessem começado a
encher o interior do
corpo
com a
tristeza nelas
contida.
E,
agora,
chegado ao
topo,
à própria
cabeça.
E,
então,
a cor
delas
começado a mudar a
cor de
tudo o que
existia.
Era pela janela dos
olhos
que a
mudança se
tornava mais
visível.
Mas o maior
mal
estava à
espreita.
O
perigo
de que,
um dia,
as pessoas
deixassem de
sentir
o que
quer que
fosse.
E se
tornassem
indiferentes.
Mas,
subitamente,
aconteceu uma
tragédia.
Que logo se
transformou numa
bênção.
Numa alegria.
Tudo teve
início
num
acidente.
No conselho dos
anciãos,
por descuido
um deles
provocou um
incêndio.
As portas encontravam-se
sempre
trancadas.
Eles temiam
secretamente os
habitantes
que não podiam
chorar
por sua
causa.
E,
de facto,
mesmo depois de soado o
alarme,
a
verdade
é que
ninguém
acorreu.
Ninguém
ajudou
os que queriam
saír
daquele lugar em
chamas.
Estariam decerto
aflitos,
desesperados,
não estariam a
sorrir.
Desobedecendo
ostensivamente
à
lei mais importante da
aldeia.
Não
podia ser
tal.
Eles
tinham,
forçosamente,
que dar o
exemplo.
Não o
fazendo,
mereciam
ser castigados.
Dias depois,
quando já não se
distinguia um
corpo
de uma
cinza de madeira,
tudo
acabou.
Com o
fumo,
desapareceu toda a
proibição
de
esconder a
tristeza.
E,
então,
de mãos
dadas,
todos
choraram
até não poder
mais.
Após o
pranto,
vieram os
abraços colectivos.
A
euforia
de quem festeja a
liberdade,
a
mudança.
Uma enorme festa
começou,
durando
sete maravilhosos
dias.
No
futuro,
aquela semana seria
sempre
palco de festejos.
“Porque agora choramos e rimos, porque agora somos o que sentimos.”
O nome da
aldeia,
antes
mudado
pelos falecidos
anciãos,
agora passou a ser
outro.
Apenas um nome
maior,
mas com um
importante acrescento.
Esta
era,
agora,
a aldeia dos
sorrisos e dos
choros.
Porque a
tristeza
também faz parte da
vida.
Sem
ela,
a vida é
certamente
mais difícil.
Insuportável.